Família pinheirense vive em condições precárias

Concelho Freguesias Pinheiro da Bemposta

Liliana Vaz, de 32 anos, residente na freguesia de Pinheiro da Bemposta, “não é senhora de ter um dia de descanso”, diz o pai, David Vaz, de 66 anos, deficiente motor e visual, ao Correio de Azeméis. Para além do progenitor, Liliana tem ainda a seu cargo, um irmão, Bruno Vaz, de 18 anos, com deficiência mental, nomeadamente esquizofrenia, epilepsia e convulsões. Ambos dependem desta mulher durante 24 horas por dia para conseguirem realizar as suas atividades rotineiras, como vestirem-se, comer e tratar da sua higiene. “Não é fácil para mim, não sei o que é sair de casa para ir passear, não sei o que é estar cinco minutos fora de casa, tenho de estar sempre dentro de casa a ver se está tudo bem”, desabafou Liliana Vaz. A vida desta jovem mulher, sendo já amarga o suficiente, é ainda mais “complicada”, como Liliana não se cansa de repetir, uma vez que a casa onde vive com o pai e o irmão não tem condições dignas e muito menos é funcional. “Nasci aqui, a casa não tem grandes condições, não sei o que é tomar banho numa banheira ou num chuveiro, sei, sim, o que é tomar banho numa bacia, tenho de lhes dar banho dentro de uma bacia [ao pai e ao irmão]. Não sei o que é lavar louça numa banca, só sei o que é nas bacias”, disse, emocionando-se. A habitação, para além de não ter uma casa de banho - essencial para esta família e que iria facilitar as tarefas de Liliana - apresenta-se muito degradada. As áreas são muito pequenas, dificultando a mobilidade, as janelas têm fissuras abertas visíveis e, apesar de já terem acrescentado tijolos nos beirais para impedir que entrasse chuva, as portas e o telhado estão a cair. Também as massas das paredes, sendo antigas, caem, criando buracos. “Tenho medo de passar e cair, vê-se mesmo lá aqueles buracos e eu até meto tábuas a tapas para ninguém ir para lá”, admitiu a mulher referindo-se ao soalho, que apodrece de dia para dia. Para além de todas estas fragilidades a que estão sujeitos, acrescem as deficiências elétricas e nas canalizações, visto que não têm acesso a água quente e só podem recorrer a uma única torneira. Também Liliana tem uma cifose na coluna desde que nasceu, o que lhe dificulta certos movimentos e, apesar de contar com alguma ajuda por parte da irmã, Flora Vaz, de 35 anos, as tarefas recaem maioritariamente sobre ela. Flora construiu uma família, tem três filhos e vive numa casa à parte, mas traz consigo em pensamento a sua irmã, o seu pai e o seu irmão todos os dias. “Apesar de eu não vir todos os dias, venho quando posso porque eu também trabalho. Isto é muito complicado, estar a gerir duas pessoas não é fácil, só ela sabe o que passa com eles”, reconheceu. “É muito difícil dar banho a uma pessoa com deficiência motora, para poder lavar a cabeça é preciso deitar a pessoa na cama e o corpo é mais complicado”, disse ainda a irmã mais velha. Por muito que esta família queira viver com mais conforto, os rendimentos que recebe não são suficientes para conseguir fazer obras de forma a obter o mínimo de condições na habitação. “Às vezes nem dá para alimentação”, confessou Liliana ao informar que recebia os alimentos pela Segurança Social, mas a partir do momento em que o irmão começou a receber um valor ao atingir a maioridade, “deixaram de dar”. Bruno tem de tomar uma medicação vitalícia, dispendiosa, para atenuar as crises que o levam muitas vezes a fugir ou agredir a irmã, e ainda paga cerca de 114 euros para poder frequentar uma escola especializada em regime diurno. O maior sonho de Liliana e do pai era “ter a casa arranjada”, sobretudo uma casa de banho com uma base de chuveiro. David confidenciou que já pediu ajuda, tanto à Junta da União das Freguesias de Pinheiro da Bemposta, Travanca e Palmaz, à Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, e que o próprio presidente da autarquia já visitou a residência. “Aparentemente foi muito gentil”, mas desde então já entrou em contacto e informaram-no que “ele [o presidente] nunca está”, disse. “Estou a ver que a qualquer momento posso morrer se a casa cair”, acrescentou. A presidente da Junta, Susana Mortágua, contactada pelo Correio de Azeméis, referiu que “é uma situação que tem vindo a ser acompanhada pela assistente social que trabalha connosco” e que foi reencaminhada para a Câmara Municipal uma vez que não é possível “intervir em património particular das pessoas a não ser ao abrigo de alguns programas que possam existir”.     Câmara disponível para apoiar Contactado pelo Correio de Azeméis, o presidente da Câmara Municipal, Joaquim Jorge, admite estar a par da situação de David Vaz e da sua família mas, perante a inexistência de um programa especifico para intervenções em casas de privados, “a melhor solução era a possibilidade de procurarem outra casa com condições e a câmara apoiar no arrendamento ou até disponibilizar uma habitação no Bairro de Lações”. Esta solução já terá sido apresentada à família, mas sem sucesso, uma vez que não quer abandonar a propriedade. “Da visita que fizemos com o vereador da Ação Social estamos a falar de um investimento de muitos milhares de euros, a intervenção é muito grande e dispendiosa” devido a todo o conjunto de carências que a casa tem, referiu Joaquim Jorge. “Temos mesmo muitos casos desses no concelho” e “a perspetiva da Câmara Municipal não tem sido a de promover obras em habitações, é de apoiar o arrendamento para as pessoas carenciadas”, acrescentou. O autarca adiantou ainda que o executivo está a tentar desenvolver um programa que permite que, anualmente, mediante uma candidatura, se resolva problemas de famílias carenciadas. “Gostaríamos de incluir no orçamento municipal de 2021 uma verba que nos permitisse começar já a criar respostas para os munícipes. Interessa-nos que sobretudo até outubro de 2020 nós tenhamos aqui a possibilidade de ter um regulamento que nos permita fazer a atribuição desse tipo de apoios que permitirão atenuar alguns problemas de moradias com esse tipo de características”, disse Joaquim Jorge. Rendimentos parcos David Vaz recebe da sua reforma 340 euros, Liliana recebe 270 euros de subsídio e Bruno recebe 410 euros. No total são cerca de 1.020 euros para a gestão dos gastos essenciais dos três membros e da habitação.

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